Recentemente li um artigo em uma grande revista de circulação nacional onde seu autor fazia críticas ao sistema de cotas para negros nas universidades públicas tentando desqualificar a palavra Quilombo, uma experiência das mais caras para a nossa história das lutas populares contra o elitismo e suas políticas e economias desumanas.
Ora, é claro que no vestibular, o computador que faz a leitura dos cartões de respostas e os professores que corrigem as provas discursivas não estão vendo se o candidato é negro ou branco. No entanto, a discriminação não está aí, e sim no caminho percorrido pelo candidato até chegar ao vestibular. Como podemos falar que o vestibular não é discriminatório, se ele leva em conta apenas o conhecimento adquirido pela educação formal? Na verdade, não está sendo avaliado o potencial do indivíduo, mas sim a qualidade de acesso que ele pode ter à informação e formação. Quantos filhos de negros podem apenas estudar, dedicando todo o seu tempo apenas a se formar e informar? Sabemos que, todas as estatísticas nunca mostraram os negros com renda e poder aquisitivo maior que os brancos, por isso, não é difícil concluir que os filhos dos negros têm menos acesso a internet, aquisição de livros, viagens que ampliem as experiências cognitivas e concretas sobre a história e geografia e até mesmo assistir às aulas melhor alimentado, o que também faz grande diferença na qualidade do aprendizado. É claro que, uma parte significativa da população branca também sofre todas essas privações, mas a segregação gera uma potencialização ainda mais nefasta desse quadro.
É necessário, sim, uma reparação social aos negros pelo que a elite branca desse país fez e continua fazendo. Se os defensores dessa nossa democracia burguesa, que é responsável por esse modelo de vestibular, acreditam realmente nela, deveriam como bons burgueses democratas, assumir esse ônus que é social.
É exatamente por isso que, neste momento, existe uma elite branca amedrontada com a proporção que a discussão sobre cotas tem tomado. É um grupo que, historicamente sempre esteve no poder, e que, pela primeira vez foi “convidado” a dividi-lo.
No passado, o Quilombo de Palmares se tornou o pesadelo dos donos de escravos e terras do nordeste brasileiro, tanto que, foi feito um dos maiores esforços econômicos e políticos da época para acabar com o Quilombo. Donos de terras e escravos da Paraíba, Rio Grande do Norte, Bahia e Maranhão se uniram e contrataram o mercenário Domingos Jorge Velho para liquidar com Palmares. Este enorme esforço tinha um bom motivo:
Palmares se tornava cada vez mais conhecido, não só por ser um refúgio, mas, também por ter se tornado um exemplo de comunidade coletiva, sem propriedade privada, com uso coletivo das terras de maneira equilibrada e sem discriminação. Em uma colônia onde a propriedade privada e concentração das terras nas mãos de uma pequena elite branca lhes garantia privilégio e poder político, Palmares se apresentava como um mau exemplo, que poderia levar toda a sociedade a questionar aquela concentração de riquezas.
É por estas questões que as cotas hoje se apresentam como um novo Palmares, pois elas são um “mau” exemplo que já colocaram em xeque o discurso da competência e dos méritos individuais. Como podemos julgar méritos e competências em uma sociedade onde não existe igualdade de acesso a informação, educação, alimentação de qualidade, e, além dessas privações, ainda ser segregado.
Júnior Silva é graduado em filosofia e cursa como aluno especial o Mestrado em Artes na Universidade Federal do Espírito Santo. É professor de filosofia e história no ensino médio e ministra as disciplinas de Filosofia da Arte e Estudo Sócio Político Econômico Brasileiro na Faculdade Novo Milênio.
